Mas, em 1789, veio a Revolução, depois o Terror, e a cabeça de
mademoiselle Didi, como a de todos que se ligavam à Coroa, foi a prêmio.
Ajudada por seu amante, o marquês de Porquerolles, mademoiselle Didi
escapou para o Rio, via Lisboa, no dia seguinte à prisão de Maria Antonieta na
Concièrgerie. Quando a rainha foi morta na guilhotina, ela jurou que só se
consideraria de novo francesa quando um dos Luíses voltasse ao trono da França,
no lugar daqueles republicanos vestidos de molambos. Mas quem subiu ao trono
foi o odioso parvenu que se promovera a imperador — Napoleão —, e
mademoiselle Didi conformou-se em amar os Bragança como se eles fossem
sua família.
Se soubessem disso, Murtinho e seus companheiros de conjura teriam
procurado outra bordadeira — e o incrível era que não soubessem. Mas, além de
mal informados, os subversivos deviam estar muito confiantes no sucesso de seu
plano porque, antes mesmo de depor o vice-rei e proclamar a Independência e a
República, já tinham criado até uma nova bandeira para o Brasil.
Quando Murtinho lhe mostrou o desenho a ser costurado e bordado,
mademoiselle Didi faiscou seus olhos muito pretos e logo viu do que se tratava. A
bandeira mostraria um retângulo azul contendo um losango branco. Dentro deste,
um círculo vermelho salpicado de estrelas (entre elas, o Cruzeiro do Sul),
atravessado por um dístico também branco, onde se lia em letras azuis a
inscrição em latim "Salus populi suprema lex esto"1
Murtinho não lhe explicou o que essas palavras queriam dizer, nem
mademoiselle
Didi
lhe
perguntou.
Não
precisava.
Era
evidentemente uma senha revolucionária — algo, para ela, tão revoltante e
hipócrita quanto "Liberte, égalité, fraternité". E, contendo os enjôos, constatou
que as cores da bandeira — não mais as cores de Portugal, mas escandalosos
bleu, blanc, rouge — só faltavam cantar a
"Marselhesa".
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