Os dois trocaram então gracejos. Ela indagou se Sidarta já almoçara. Quis saber
se era verdade que os samanas passavam a noite sozinhos no mato e não unham o
direito de gozar a companhia de mulheres. Enquanto isso, colocou o pé esquerdo
sobre o pé direito de Sidarta e esboçou o gesto que fazem as mulheres, quando
excitam os homens àquele jogo de amor que os manuais didáticos denominam:
"Trepar na árvore". Sidaría sentiu que seu sangue escaldava c, recordando-se do
sonho que tivera, inclinou-se levemente em direção da mulher, para apertar a
boca no bico pardo do seio. Erguendo o rosto, viu que a mulher sorria, cheia de
desejo. Nos olhos semicerrados liam-se a imploração e a cupidez.
Também Sidarta experimentava o mesmo desejo. Sentia a vibração da fonte do
sexo. Mas, como jamais se acercara de mulher alguma, hesitou por um instante,
com as mãos já dispostas a agarrá-la. E nesse momento ouvia, estremecendo, a
voz da sua alma e a voz dizia: "Não!" De súbito, o semblante risonho da rapariga
perdeu todo o seu encanto. O que se lhe deparava era apenas o olhar úmido de
uma fêmea no cio. Gentilmente, Sidarta acariciou-lhe a face. Em seguida,
afastando-se a passo lépido da mulher desapontada, sumiu no bambual.
No mesmo dia, antes do entardecer, alcançou uma cidade grande. Alegrou-se
com isso, uma vez que tinha saudade de criaturas humanas. Por longos anos,
vivera na floresta e a choupana de palha do balseiro, onde ele passara a noite
anterior, era, desde muito tempo, o único teto a abrigá-lo.
Diante das portas da cidade, nas proximidades de um belo bosque cercado, um1
grupinho de servos e aias, carregados de cestas, ia de encontro ao caminhante.
Dentro de uma liteira conduzida por quatro homens e coberta de um baldaquim
de muitas cores, uma senhora, a patroa, estava sentada num coxim vermelho.
Sidarta estacou junto à entrada do arvoredo, a fim de contemplar o cortejo.
Observou os criados, as raparigas, as cestas. Olhou a liíeira e dentro dela,
enxergou a dama. Sob uma alta torre de cabelos negros, avistou um semblante
muíto claro, bem delicado, bastante inteligente, com a boca rosada, como um
figo recém-cortado. Cuidadosamente pintadas, arqueavam-se 45
as sobrancelhas. A mirada dos olhos escuros revelava siso e vigilância. Alvo e
comprido, o pescoço saía do corpete verde e jajde. As mãos brancas, graciosas,
delgadas, repousavam, imóveis e largos braceletes de ouro adornavam os pulsos.
Sidarta admirou-se de tanta beleza e seu coração deliciou-se.
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