apenas duas casas. Guedes visitou os edifícios e as casas para saber se alguém
tinha alguma informação sobre o caso. A dificuldade nesse tipo de trabalho é
saber como conter os loquazes e estimular os lacônicos. Normalmente as pessoas
que menos sabem são as que mais falam. Mas ninguém havia visto ou ouvido
coisa alguma. Um estampido de 22 dentro de um carro com os vidros
completamente cerrados não fazia mesmo muito barulho.
O tira comeu um sanduíche numa esquina da rua Voluntários da Pátria, onde
ficava o prédio do consultório do doutor Pedro Baran. Antes havia passado numa
livraria e olhara no Aurélio o significado do vocábulo oncologia.
“Sim”, disse Baran depois que Guedes relatou a morte de Delfina e sua suspeita
de que ela havia se matado, “ela era minha cliente e não me surpreendo com o
suicídio.”
Baran apanhou uma ficha à sua frente, sobre a mesa.
“Ela veio pela primeira vez ao meu consultório por indicação do clínico que a
atendia, o doutor Askanasi. Queixava-se de suores noturnos, nervosismo, perda de
peso e de apetite. Dona Delfina atribuía esses sintomas a preocupações com uma
viagem que iria fazer. Ela odiava viajar, segundo me disse, e os sintomas para ela
seriam apenas uma reação psicossomática. Estava enganada. Os pacientes
sempre se enganam quando fazem autodiagnósticos. Colhi sangue e mandei que
ela voltasse dois dias depois. Mas ela foi viajar e só apareceu três meses mais
tarde, alguns dias atrás. Mostrei-lhe o resultado do exame, esse que você tem nas
mãos: presença de mieloblastos que permitiam um único diagnóstico. Ela sofria
de leucemia, uma doença fulminante, por enquanto ainda incurável, de
tratamento paliativo extenuante e doloroso. Eu lhe disse que achava que ela tinha
poucos meses de vida, mas aconselhei-a a obter uma outra opinião médica.”
“Como foi que ela reagiu?”
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