A Terapeuta – Gaspar Hernández

Tudo isto é o que não podia contar a Ruth este meio-dia. Ruth não teria entendido nada e teria ficado com ciúmes. Teria confirmado que a psicóloga era estranha e que ele, de repente, também era. Ou talvez ela gostasse de saber que ele havia sido um pouco baderneiro. Antes de ir embora do apartamento de Ruth, desde que seu telefone ligara para Nacho (como Ruth acabara de sugerir). Primeiro ligou no estacionamento e pediu o número dele a Espada. E, a continuação, tinha ligado para Nacho e perguntado se podia passar para visitá-lo esta mesma tarde. Nacho pareceu ter ficado contente. – Muito obrigado. Não esperava esta ligação. Héctor tem tempo de sobra, faltam três horas para ir ao teatro Romea. Além do mais, Nacho vive perto do teatro, na rua Peu de la Creu. Enquanto vai até a casa do Nacho, pensa em Eugenia. Esta manhã, como um covarde, em um momento no qual ela ainda estava dormindo (tinha se assegurado disso, olhando de novo pela janela), tinha ligado para ela, deixado uma mensagem na secretária dizendo que não se encontrava bem e que hoje, infelizmente, não poderia ir à consulta. Não sabe o que vai acontecer esta noite. Não sabe se ela irá vê-lo no teatro Romea. Deve estar brava e com razão. Mas, conhecendo-a, seria estranho que o deixasse pendurado no teatro, incapaz de atuar. O mais provável é que amanhã, quando ele voltar à consulta – porque sim, tem que voltar, como um homem, e se desculpar, e talvez reconhecer de uma vez por todas que está atraído por ela – o mais provável é que ela diga que devem parar com a terapia. Que continuará indo ao teatro Romea enquanto a obra permanecer em cartaz; mas que pela manhã não é preciso que continuem conversando. Que perdeu a confiança nele. Ou talvez não. Talvez, na verdade, esteja apaixonada por ele e se sinta honrada pelo fato de que ele tenha reservado um quarto de hotel só para vê-la. Para espiá-la? Não necessariamente. Ele pode negar que estivesse espiando. Não viu nada que um turista não veria. Mesmo assim, o fato de que ele não fosse um turista faz de seu ato algo doentio. Mas, no final, ele não é mesmo um doente? Não é a ansiedade uma doença? E não é uma doença a paixão? Todo dia pensando na pessoa desejada, esperando notícias suas. Há alguma diferença com a obsessão?

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