A Rainha Estrangulada – Os Reis Malditos – Vol 02 - Maurice Druon

Voltando para casa, precedido, como de costume, de três porta-maças e
seguido por dois secretários e um escudeiro, monseigneur de Marigny ainda não
compreendia o que acabava de se passar e como o destino havia se transformado
tão bruscamente. A cólera obscurecia suas idéias. "Esse patife, esse canalha,
acusando-me de vender tratados; tal censura, em sua boca, é no mínimo um
gracejo!... E o reizinho, de cérebro de mosca e de gênio de vespa, que não abre a
boca para me defender e que, ao contrário, me leva o Tesouro!"
Cavalgava sem nada ver das ruas e das pessoas, sem notar as fisionomias
hostis dos que deviam afastar-se à sua passagem. Ele não era querido.
Governava os homens de tão alto e há tanto tempo, que perdera o hábito de olhar
para eles.
Chegando a sua casa da Rue des Fossés-Saint-Germain, desmontou sem
esperar a mão do escudeiro, atravessou o pátio apressadamente, jogou sua capa
no primeiro braço que se estendeu e, sempre segurando sua pasta de
documentos, subiu a escadaria que levava ao primeiro andar.
A casa parecia menos uma moradia particular do que um ministério: tinha
grandes móveis, grandes candeeiros, tapetes espessos, pesadas armações,
somente coisas sólidas, feitas para durar. Um exército de criados cuidava do
serviço.
Enguerrand de Marigny empurrou a porta do aposento em que sabia estar a
esposa. Esta, próxima à lareira, brincava com um cachorro anão da Itália, de
pêlo cinza e liso, semelhante a um cavalo em miniatura. Sua irmã, dama de
Chanteloup, viúva linguaruda, estava junto dela.
Ao ver a fisionomia do marido, madame de Marigny compreendeu
imediatamente que acontecera um drama.
— Enguerrand, meu caro, que aconteceu? — perguntou ela.
Joana de Saint-Martin, afilhada da falecida rainha Joana, esposa de Filipe, o
Belo, vivia na admiração do homem que havia escolhido para marido, e se
consumia de devoção por ele.
— Aconteceu — respondeu Marigny — que, agora que o dono não os
mantém sob o chicote, os cães se atiraram contra mim.
— Posso ajudar-te de algum modo?
Ele respondeu, asperamente, que já era bastante crescido para defender-se
sozinho; então, as lágrimas vieram aos olhos de madame de Marigny. Enguerrand
sentiu remorsos e, tomando-a pelos ombros, beijou-a na testa, perto dos cabelos
louros já grisalhos, dizendo-lhe:
— Sei bem, Joana, que não tenho senão a ti para me amar!
Depois dirigiu-se para o seu gabinete de trabalho e jogou a pasta de
documentos sobre um móvel. Suas mãos tremiam e deixou cair um castiçal que
desejava mudar de lugar. Soltou uma praga e caminhou, um momento, da janela
à lareira, para dar à razão tempo para vencer a cólera.
"Roubaram-me o Tesouro, mas esqueceram-se do resto. Esperem; não me
dobrarão assim tão facilmente."
Fez soar uma sineta.
— Quatro sargentos, depressa — disse ao servidor que se apresentou.
Os homens chamados acorreram da sala da guarda, tendo nas mãos o bastão
com a flor-de-lis. Marigny distribuiu-lhes as ordens:
— Vai me buscar messire Alain de Pareilles, que deve estar no Louvre. Tu,
meu irmão arcebispo, no palácio episcopal. Vós, messires Guilherme Dubois e
Raul de Presles, e tu, messire Le Loquetier. Encontrai-os onde estiverem. Esperalos-ei
aqui.
Os mensageiros partiram e Enguerrand empurrou a porta da sala em que
trabalhavam os secretários:
— Alguém para um ditado — gritou.
Um funcionário atendeu, com penas e tinteiro.
"Sire", começou Marigny, plantado de costas para o fogo, "no estado em que
me encontra a volta a Deus do maior rei que a França conheceu..."
Escrevia a Eduardo II, rei da Inglaterra e genro de Filipe, o Belo, pelo seu
casamento com Isabel de França. Depois de 1308, ano dessa união que ele
ajudara a preparar, Marigny tivera muitas ocasiões de prestar a Eduardo
serviços políticos ou privados. O casal andava mal e Isabel se queixava dos
costumes anormais do marido. A situação continuava, na Guyenne, sempre
tensa... Marigny tinha sido designado, em companhia de seu inimigo Carlos de
Valois, para representar o rei da França nas cerimônias da coroação de
Westminster. Em 1313, o soberano inglês, quando de sua estada na França, havia
agradecido ao coadjutor com uma pensão em vida de mil libras.
Hoje cabia a Marigny recorrer ao rei Eduardo e pedir sua intervenção a seu
favor. Soube mostrar, em sua carta, o interesse que tinha em que os negócios da
França não mudassem de direção. Os que haviam trabalhado juntos pela paz dos
impérios deveriam continuar unidos.
— Por cavaleiro, monseigneur?
— Não. Isso será levado pelo meu próprio filho. Manda um amanuense
procurá-lo, caso não esteja por aqui.
Assim que o secretário saiu, Marigny desabotoou a gola da roupa, pois a
agitação começava a inchar-lhe o pescoço.
"Pobre reino", murmurou. "Em que estado vão colocá-lo, se não me opuser?
Não trabalhei tanto para ver todos os meus esforços arruinados!"
Como todos os homens que exerceram o poder por muito tempo, ele chegara
a identificar-se com o país, considerando qualquer ofensa à sua pessoa como
uma ofensa direta aos interesses do Estado.
Nessa ocasião não estava errado, mas sim pronto, mesmo sem o perceber, a
agir contra o reino no mesmo instante em que lhe limitassem a faculdade de
dirigi-lo.
Foi nesse estado de espírito que recebeu o irmão, João de Marigny. O
arcebispo, com o corpo magro encerrado numa sotaina violeta, tinha uma atitude
constantemente estudada, que desgostava o irmão. Este sentia vontade de dizer ao
mano mais jovem: "Reserva tua pose para os teus cônegos, se quiseres, mas não
para mim, que te vi babar na sopa e assoar-te com os dedos!"
Em dez frases resumiu o que se passara no Conselho que deixara e, sem
perder um segundo, comunicou seus projetos com aquele mesmo tom, que não
admitia réplica, com que falava aos seus funcionários:
— Não quero papa por enquanto, porque enquanto não houver papa terei o rei
nas mãos. Nada de conclave bem organizado e pronto para obedecer às ordens
de Bouville. Nada de paz em Avignon entre os cardeais. Quero que eles briguem;
faz com que assim continuem até novo aviso.
João de Marigny, que a princípio participara da cólera do irmão, retraiu-se
logo que se tocou no conclave. Refletiu um instante, contemplando seu belo anel
de prelado.
— Pois bem, em que estás pensando? — perguntou Enguerrand.
— Meu irmão — disse o arcebispo —, teus projetos inquietam-me.
Semeando no conclave mais desordem do que já existe, arrisco-me a perder a
amizade de tal candidato, que, bem colocado hoje para tornar-se papa, dar-meia,
logo após sua eleição, o chapéu de cardeal...
Enguerrand explodiu.
— O teu chapéu! Não é hora de falar nisso! Se algum dia -o tiveres, meu
pobre João, serei eu quem o dará, como já te dei a tua mitra. Mas se te colocares
no partido de meus adversários, bem cedo ficarás não somente sem chapéu, mas
sem sapatos, como um miserável monge, esquecido em qualquer convento.
Esqueces muito rapidamente o que me deves e a enrascada de que te salvei, há
dois meses, na trapaça com os bens dos templários. A propósito, esse documento
desastroso que deixaste nas mãos do banqueiro Tolomei, e graças ao qual os
lombardos me fizeram recuar, justamente quando desejava taxá-los mais, já
conseguiste reavê-lo?
— Já, claro, mano — respondeu o arcebispo, que mentia.
Logo, porém, deu-se por vencido.
— Que devo fazer? — perguntou.
— Manda-me para lá alguns emissários de segurança absoluta, quero dizer,
gente que poderás manejar de qualquer lado e que receie minha cólera. Mandaos
espalhar os boatos mais desencontrados, fazendo crer, aos franceses, que o
novo rei vai permitir a volta da Santa Sé para Roma e, aos italianos, pelo
contrário, que ele quer aprisionar o próximo papa perto de Paris. Faze-os semear
toda a discórdia que os padres podem engendrar entre si. Nosso Bouville se
perderá em plena quietude. Bertrand de Got maltratou um pouco demais esses
cardeais; vamos dar-lhes outra coisa: o medo do que não existe. Eles não se
querem bem, desejo que eles se odeiem e se atirem uns contra os outros. E que
me ponham a par de tudo, semana a semana, se não puder ser diariamente...
Nosso jovem Luís X quer um papa? Ele o terá quando chegar o dia, mas não
qualquer papa que nos fará perder, num minuto, o que o rei Filipe e eu levamos
tempo para arrancar de dois pontífices... Trata, se possível, de arranjar
emissários que não se conheçam.
Dito isto, despediu o irmão e mandou entrar o filho, que esperava na porta.
Luís de Marigny, como acontece amiúde nas famílias, parecia-se mais com o tio
arcebispo do que com o pai. Era magro, muito cuidadoso com a aparência, e
vestia-se com um pouco de rebuscamento.
Filho de uma personagem diante da qual todo o reino se abaixava, afilhado,
outrossim, de Luís, o Turbulento, não sabia o que era lutar para conseguir o que
desejava. Era leviano, gostava de aparecer e afetava um ar de nobreza que se
exibe de bom grado mais na segunda geração do que na décima; e se sentia
grande admiração pelo pai, ao qual devia tudo, e que o dominava de tão alto, não
podia deixar de reprovar, no íntimo, suas maneiras rudes. Este jovem possuía
uma única qualidade, ou melhor dizendo, uma só vocação: gostava de cavalos,
conhecia-os e sabia servir-se deles como se tivesse, há dois séculos, a cavalaria
no sangue.
— Luís, manda equipar teus cavalos — disse Enguerrand —, pois partirás
imediatamente para Londres, levando esta carta.
A fisionomia do moço tomou um ar de enfado.
— Isso não pode ser enviado amanhã, meu pai, ou então um cavaleiro não
poderia me substituir? Preciso caçar amanhã no bosque de Bolonha... caçada
simples, porque estamos de luto, mas...
— Caçar! Só pensas em caçar; escolheste bem a época! — exclamou
Marigny. — Não posso nunca pedir alguma coisa aos meus, pelos quais faço
tudo, sem que eles comecem por torcer o nariz? Fica sabendo que, no momento,
o que caçam sou eu! e que, se não me ajudares, arrancarão a minha pele e a
tua... Se fosse suficiente um cavaleiro, já teria pensado nele sozinho! É ao rei da
Inglaterra que te mando, e tenho coisas a lhe dizer que não posso confiar numa
carta. Será que isso não lisonjeia tua honra a ponto de renunciares à tua caçada?
— Perdoa-me, meu pai — respondeu Luís de Marigny —, não tinha
compreendido.
Marigny tomou o estojo que continha a carta.
— Conheces o rei Eduardo por tê-lo visto em Paris no outro ano. Dir-lhe-ás
justamente isto: monseigneur de Valois quer apoderar-se de tudo. Receio que, se

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