Trem Noturno Para Lisboa – Pascal Mercier

“Não pode ser, é impossível.” Gregorius tirou os óculos novos, levíssimos, esfregou os
olhos e voltou a colocá-los. Era possível, sim: estava enxergando melhor do que nunca.
Especialmente na parte superior das lentes, através da qual olhava para o mundo. As
coisas pareciam lhe saltar à vista, pareciam insistir em atrair o seu olhar para elas. E
como ele já não sentia o peso habitual no nariz que tornara seus óculos uma espécie de
barreira protetora, a sua nitidez tornara-se inoportuna, quase ameaçadora. Além disso, as
novas impressões o deixavam tonto. Voltou a tirar os óculos. Um sorriso se esboçou no
rosto casmurro de César Santarém.
— Agora o senhor já não sabe qual é o melhor, o velho ou o novo.
Gregorius acenou com a cabeça, concordando, e postou-se diante do espelho. A
armação fina e avermelhada e as novas lentes que já não pareciam barreiras marciais
faziam dele uma nova pessoa. Alguém que se interessava pela aparência. Que queria ser
elegante, chique. Bem, aquilo era um exagero, mas mesmo assim. A assistente de
Santarém, a mesma que o convencera a ficar com aquela armação, fez um gesto de
aprovação lá do fundo. Santarém o viu.
— Tem razão — disse ele.
Gregorius sentiu a raiva aflorar dentro dele. Voltou a pôr os óculos velhos, pediu
que embrulhassem o novo e pagou rapidamente.
Normalmente, era preciso caminhar meia hora para chegar ao consultório da dra.
Mariana Eça, em Alfama. Gregorius precisou de quatro horas. Para começar, sentava
cada vez que via um banco para mudar de óculos. Com as novas lentes o mundo era
maior e o espaço, pela primeira vez, realmente tinha três dimensões dentro das quais as
coisas podiam se expandir livremente. O Tejo deixara de ser uma vaga superfície de
coloração marrom e passara a ser um verdadeiro rio, e o castelo de São Jorge erguia-se
no céu em três direções. Mas assim o mundo também se tornava cansativo. Embora fosse
mais fácil caminhar com aquela armação levíssima, pois os passos pesados aos quais
estava habituado não combinavam com a nova leveza no seu rosto. O mundo tornara-se
mais próximo e premente, exigia mais, sem que ficasse claro em que exatamente
consistiam suas exigências. Quando essas exigências começavam a pesar, ele parava e se
refugiava atrás dos óculos antigos que impunham uma distância em relação a todas as
coisas e lhe permitiam duvidar se ainda existia um mundo exterior além das palavras e
dos textos, uma dúvida que lhe era cara e sem a qual ele mal conseguia imaginar a vida.
Mas por outro lado também já não era mais capaz de esquecer o novo olhar e, num
pequeno parque, tirou do bolso as anotações de Prado e experimentou lê-los com os
óculos novos.
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“A vida não é aquilo que
vivemos, é aquilo que imaginamos viver”

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