A vida precisa ser renovada.

A vida precisa ser renovada. A morte é a mudança que estabelece a renovação. Quando alguém parte, muitas coisas se modificam na estrutura dos que ficam e, sendo uma lei natural, ela é sempre um bem, muito embora as pessoas não queiram aceitar isso. Nada é mais inútil e machuca mais do que a revolta. Lembre-se de que nós não temos nenhum poder sobre a vida ou a morte. Ela é irremediável.
O inconformismo, a lamentação, a evocação reiterada de quem se foi, a tristeza e a dor podem alcançar a alma de quem partiu e dificultar-lhe a adaptação na nova vida. Ele também sente a sensação da perda, a necessidade de seguir adiante, mas não consegue devido aos pensamentos dos que ficaram, a sua tristeza e a sua dor.
Se ele não consegue vencer esse momento difícil, volta ao lar que deixou e fica ali, misturando as lágrimas, sem forças para seguir adiante, numa simbiose que aumenta a infelicidade de todos.
Pense nisso. Por mais que esteja sofrendo a separação, se alguém que você ama já partiu, libere-o agora. Recolha-se a um lugar tranqüilo, visualize essa pessoa em sua frente, abrace-a, diga-lhe tudo que seu coração sente. Fale do quanto a ama e do bem que lhe deseja. Despeça-se dela com alegria, e quando recorda-la, veja-a feliz e refeita.
A morte não é o fim. A separação é temporária. Deixe-a seguir adiante e permita-se viver em paz.

"A morte é só uma mudança de estado.
Depois dela, passamos a viver em outra dimensão"
Zíbia Gasparetto

Psicologia de um vencido



Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Produndissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Augusto dos Anjos

METADE



Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca; 
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada 
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta 
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso 
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria 
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...

E que a minha loucura seja perdoada 
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.
Oswaldo Montenegro

Cartas de Nietzsche — Carta a Heinrich Köselitz (Peter Gast)

Caro amigo,

[...]Dostoievsky veio a mim da mesma maneira que antes veio Stendhal: por completo acidente. Um livro casualmente folheado numa loja, um nome que eu nunca tinha ouvido falar antes - e então a súbita consciência que alguém tinha se encontrado com um irmão.

[...]quatro anos na Sibéria, trancafiado, entre insensíveis criminosos. Este período foi decisivo. Ele descobriu o poder da sua intuição psicológica; e mais, seu coração sensibilizou-se e tornou-se profundo neste processo. Seu livro de memórias deste período, La maison des morts [A Casa dos Mortos] é um dos livros mais "humanos" já escritos. [...] Eu primeiro li [...] duas novelas curtas ["A proprietária"] e ["Notas do subterrâneo" ]: o primeiro uma espécie de música estranha, o segundo uma verdadeira pincelada de gênio psicológico - uma assustadora e cruel imitação do délfico "Conhece-te a ti mesmo", mas lançada com tamanha audácia espontânea e alegria em seus poderes superiores que fiquei profundamente embevecido de contentamento. [...]

José de Alencar Biografia

José Martiniano de Alencar (1829-1877) é um dos grandes nomes da literatura brasileira. Foi advogado, jornalista, jurista, professor, orador, político, romancista, poeta e dramaturgo. Escreveu livros que foram marcos do Romantismo brasileiro: O Guarani e Iracema. Escreveu também algumas crônicas, que foram publicadas no Correio Mercantil em forma de folhetins, chamados Ao Correr da pena. Mais tarde, esses textos foram reunidos num livro, que recebeu o mesmo nome.

Na época de Alencar a crônica era um pouco diferente da que conhecemos hoje e parecia-se muito mais com os folhetins publicados na Europa daquele período. Alencar escrevia textos comentando fatos ocorridos durante a semana. Com isso, seu texto tinha dois aspectos: um informativo, já que tinha a função de informar os leitores, e um literário, pois o escritor desenvolvia um estilo próprio de escrever seus textos.

Ao correr da pena - José de Alencar

XXIII
Rio, 18 de março
A semana que passou foi a dos aniversários felizes.
Domingo festejaram-se os anos da nossa Princesa, que trocou a bela terra do Brasil pelo poético céu da Itália.
Quarta-feira teve lugar a solenidade do aniversário da nossa Imperatriz, que deixou as lindas ribeiras de
Nápoles pela majestosa baía do Rio de Janeiro.
Assim, logo após da saudade, veio uma lembrança prazenteira. Se perdermos por algum tempo uma flor
graciosa da nossa coroa imperial, ganhamos para sempre um anjo de bondade, um exemplo das belas virtudes.
E isto me faz lembrar do quanto somos devedores àquela boa terra de Itália, que nos confiou com tanto prazer
a filha de seus reis, e acolheu com tanto amor a irmã do nosso monarca.
Sem falar dos artistas que daí nos têm vindo, e das belas noites de teatro que devemos à sua escola e aos seus
gênios musicais, lembremo-nos que é lá, nessa terra clássica das artes e do belo, que muitos brasileiros se têm
ilustrado e adquirido os conhecimentos que atualmente são aproveitados em bem do país.
Foi ainda no meio dessas ruínas seculares de tantas gerações que passaram, no solo onde viveu o povo rei, na
terra em que nasceu Virgílio, que um poeta brasileiro foi beber as últimas inspirações do seu poema nacional,
como que para imprimir-lhe esse cunho de grandeza e de sublimidade que o tempo tem deixado na história
daquele povo.

Matrimônio do Céu e do Inferno – William Blake

A Voz do Demônio
Todas as Bíblias ou códigos sagrados têm sido a
causa dos seguintes erros:
1. Que o Homem possui dois princípios reais de
existência: um Corpo & uma Alma.
2. Que a energia, denominada Mal, provém unicamente
do Corpo; E a razão, denominada Bem, deriva
tão-somente da Alma.
3. Que Deus atormentará o Homem pela Eternidade
por haver imantado suas Energias.
Mas, por outro lado, são verdadeiros os seguintes
Contrários:
1. O Homem não tem um Corpo distinto da
Alma, pois aquilo que denominamos Corpo não passa
de uma parte de Alma discernida pelos cinco sentidos,
seus principais umbrais nestes tempos.
2. Energia é a única força vital e emana do Corpo.
A Razão é a fronteira ou o perímetro circunfeérico
da Energia.
3. Energia é Eterna Delícia.